Border CollieAté poucos anos atrás, ele era praticamente um desconhecido entre os brasileiros. Mas está chegando de mansinho. Começou como "estrela" de diversos comerciais de TV, trazido pelo adestrador, criador e especialista em comportamento animal, Gilberto Miranda, responsável pelo treinamento desses "artistas" há anos. "A raça já apareceu em 112 propagandas brasileiras", diz ele. Mesmo assim, pouca gente a reconhece. É que o Border Collie tem muitos tipos físicos e quem não o conhece pode não associá-lo a uma raça definida. Mas, se você prestar atenção, vai notar algo em comum entre o cão apresentado ao lado de um Cocker num anúncio de rações, o que se vê no filme do adoçante Finn, e o da Campanha Nacional de Vacinação do Governo Federal (ao lado de um gato e de um Labrador Amarelo). E entre esses, um casal de cães com papel importante no filme "Babe, Um Porquinho Atrapalhado".

Não é à toa que o Border foi escolhido para participar de tantas produções: ele é considerado o cão mais obediente do mundo. O canadense Stanley Coren, psicólogo e treinador de cães, autor do livro A Inteligência dos Cães, coloca a raça em primeiro lugar entre as 133 que tiveram sua inteligência de obediência e trabalho testada em diversas provas. Segundo Coren, 190 dos 199 juízes participantes situaram o Border entre os dez melhores. Patricia Harvey, adestradora há 17 anos e responsável pela parte educacional da Holyrood Dog Obedience Society, na Escócia, já treinou muitas raças para o trabalho e afirma que se tiver que escolher um cão para provas de obediência, fica com o Border. "Eles estão 'prontos' mais cedo que os Pastores Alemães e os Golden Retrievers, duas outras raças reconhecidas por sua obediência. Gilberto explica: "Quando estimulado pelo interesse do dono, o Border aprende muito cedo, aos quatro ou seis meses para provas de obediência, por exemplo, enquanto outras raças só aprendem aos seis ou oito meses."

Uma característica do Border é a sua precocidade. "Tenho um filhote de quatro meses e já saio com ele na rua sem coleira, sem que se afaste", revela Arlindo Stocco, que ganhou o cão de seu filho, Marcelo Stocco, criador pelo Canil Border Collie, de Campo Bonito - SP. "Quando mando parar, a reação é imediata; fica imóvel e só volta pra mim se o chamo", garante. Marcelo comenta que as outras raças têm dificuldade de entender isso tão cedo. Jane Cresswell, secretária do Border Collie Club of Great Britain e criadora há 17 anos confirma: "Um Border de apenas três ou quatro meses, bem motivado, já obedece ordens como pare, deita e venha", comenta. "Que outra raça faz isso?", desafia.

Jane diz ainda que eles são rápidos em compreender as situações e tentar resolvê-las. Relata que, certa vez, uma amiga sua, dona de um Border, caiu dentro de casa e não podia se mexer. Conseguiu apenas pronunciar o nome do marido, que estava no jardim. O cão foi logo até ele e ficou puxando-o pela camisa. O marido, sem entender, achou que o Border queria brincar e jogou uma bola para ele apanhar. O Border nem ligou, e continuou puxando-o. Finalmente, o dono entendeu e decidiu segui-lo. O cão o levou direto aonde a dona estava, caída no chão.

O Border se destaca pela notável capacidade de aprender sozinho, por observação. "Certa vez eu treinava dois filhotes a transpor obstáculos; o macho fez tudo bem, mas a fêmea não entendeu. Então o fiz repetir os exercícios na frente dela. Em seguida, dei o comando e ela fez direitinho." Essa capacidade foi lembrada também pelo norte-americano Allen Webb, dono de uma Border. "Tudo que ensinava a outro cão, um Schipperke, a Border aprendia. Seja a dançar sobre as duas patas traseiras, como a trazer objetos de volta e ficar sentado no banco de trás do carro", diz.

Ruth Hobday, tem uma escola de adestramento de cães na Inglaterra, e cria a raça há 11 anos. Alerta que o cão aprende tudo muito fácil - até o que o dono não gostaria. Um dos Borders de Jane detesta o aquecedor "Quando tenho de ligá-lo, no inverno, espera que eu dê as costas, vai até o termostato e o desliga", conta. "Se quero que eles não entrem em algum cômodo, preciso trancar a porta", completa. Ela conta, ainda, que muitas vezes prende seus cães no canil. Quando percebe, já conseguiram abrir o portão e lá estão eles no quintal. "Mas sabem que não gosto, e se apareço, nem preciso falar: correm para dentro do canil e esperam que eu feche a porta", diz. Conforme ensina o próprio Coren, é preciso entender que os critérios usados para classificar a inteligência canina referem-se ao seu potencial de desempenho máximo. Isso significa que embora o Border tenha muitas capacidades, fazer aflorá-las de modo positivo vai depender do dono, ou do treinador do cachorro. "É como um diamante que precisa ser lapidado", diz Miranda.

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